Italiano radicado no Rio, Puppi lança disco com participação de Milton Nascimento

Italiano radicado no Rio, Puppi lança disco com participação de Milton Nascimento

Navegando pelos mares da vida, Puppi aportou no Brasil. O violoncelista italiano radicado no Rio de Janeiro é um sonhador nato. Fantasiou que pudesse viver de música, imaginou como seria gravar com Milton Nascimento e tudo virou realidade. É no segundo disco de sua carreira, “Marinheiro de Terra Firme”, que ele ousa e prova que é possível unir Beethoven com drum n’ bass ou falar sobre imigração em um contexto de música pop instrumental. O álbum é um lançamento Sagitta Records e já se encontra disponível nas principais plataformas de streaming.

Ouça “Marinheiro de Terra Firme”: http://bit.ly/PuppiMDTF

Da capa ao som, tudo em “Marinheiro de Terra Firme” evoca a força de quem abandona a sua terra natal em busca de uma vida diferente em outro lugar. O conceito da capa surgiu em parceria com o artista plástico italiano Alain Joly. A ideia é que as baleias são os maiores marinheiros do planeta, navegando longas distâncias, como se vivessem a dar voltas ao mundo. Na ilustração, o universo cabe dentro do navegante, como se toda a experiência da viagem tivesse se construído como um planeta dentro deste marinheiro incansável.

“A baleia é como um vaso que vai se preenche do que encontra, até transformar-se no mundo. O viajante, o marinheiro da terra firme, é um vaso que se completa com os encontros que ele vive durante a sua viagem. Imagina a capa ao contrário: a baleia branca no meio do universo, essa é a situação pré-viagem. No fim da viagem, é o que vemos na capa, após todo o percurso do viajante”, explica Puppi.

Com 13 faixas, o álbum é um convite a navegar entre sons e experimentações – como nas duas músicas lançadas, “Em Direção Obstinada e Contrária” e “Ciranda dos Náufragos”, que ganhou clipe. A primeira faixa, “Prólogo”, traz a citação em espanhol “Castigo para los que no practican su pureza con ferocidad”. A frase é do autor argentino Mario Trejo, e funciona como o mote do disco. A ideia é que para seguir nesta viagem, é preciso amor e resiliência.

Assista o clipe “Ciranda dos Náufragos”: https://youtu.be/HTqcJ36RWI0

E cada música nos prepara para um dos pontos altos do disco: a canção “Capitão do Mar”, com a forte voz de Milton Nascimento. A faixa nasceu de improvisações que Puppi fazia com um amigo violonista, quando ainda morava na Itália, mas nunca foi finalizada. Foi só em 2017 que o artista concluiu a melodia, com Mario Wamser. Durante o processo de gravação, Puppi notou que ela ficaria perfeita na voz de Milton e começou a fantasiar com o artista a cantando.

Puppi (crédito: Bidi Bujnowski)

“Tinha certeza que ia ficar linda com a voz dele. Tomei coragem e escrevi para o Augusto Kesrouani e ele me convidou para mostrar a música ao Milton. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mostrei a canção pra ele, e para mim isso já era um presente muito grande, estar perto dele mostrando meu trabalho. Ele aceitou gravá-la e a felicidade de ouvir a voz maravilhosa do Milton passear pelas melodias foi imensa! Capitão do Mar é para o marinheiro Milton, o viajante que ensina em acreditar nos sonhos, que inspira a coragem, a força e a beleza das travessias”, relembra Puppi.

Como se fôssemos embalados pelo mar, o disco segue com faixas que evocam diversos sentimentos. Sempre na busca de inovar, é na faixa 12, com “Clareou”, que Puppi mostra o encontro do violoncelo com o atabaque. A canção é um ponto de Umbanda, na voz de Ivo de Carvalho, um dos maiores compositores umbandistas, atuante há mais de quatro décadas.

“Ivo é um compositor maravilhoso, um ser humano de luz e uma guia espiritual que ilumina o caminho de muitas pessoas. A primeira vez que ouvi esta música me emocionei muito, ela me tocou num lugar profundo. ‘Clareou’ tem uma energia gigantesca dentro dela, dentro da sua letra, na voz do Ivo, nos atabaques. Ela finaliza este álbum conceitualmente, clareia a vida, a mente do Marinheiro. É a estrela guia, a direção, a mãe, o amor, a força, a coragem. Ela é para todos os Orixás”, explica Puppi.

Dono de uma técnica refinada e uma vontade incontrolável de se reinventar, Federico Puppi reúne influências que vão do clássico ao jazz passando pelo punk rock. No Rio desde 2013, seu trabalho mais reconhecido é o disco “Guelã”, de Maria Gadú, que co-produziu com a artista. Tido pela crítica especializada como um marco na carreira de Gadú, o álbum foi indicado ao Grammy Latino. Em 2015, ele lançou “Canto da Madeira”, seu elogiado disco de estreia.

O segundo disco de Puppi, “Marinheiro de Terra Firme”, foi gravado entre fevereiro e setembro de 2017, no estúdio Ouvido em Pé, por Federico Puppi, Mário Wamser e Mari Blue (Rio de Janeiro) – exceto percussões de “Ciranda dos Náufragos”, gravadas no estúdio F&M, por Felipe Roseno (São Paulo). O disco foi mixado por Diogo Guedes, no estúdio Toca do Mendigo (Rio) e masterizado por Andrea Bernie De Bernardi, no estúdio Eleven Mastering (Itália).

Os músicos que fizeram parte do disco são: Lancaster Pinto (baixo), Gastão Villeroy (baixo), Cesinha (bateria), Miguel Couto (bateria), Schwab (didjireedoo e voz), Mario Wamser (wurlitzer, violão de aço e voz), Marco Lobo (percussão), Felipe Roseno (percussão), Mari Blue (voz) e Suzana Nascimento (voz).

Ouça “Marinheiro de Terra Firme”: http://bit.ly/PuppiMDTF

 

Spotify: http://bit.ly/MDTFSpotify

YouTube: http://bit.ly/MDTFYouTube

Deezer: http://bit.ly/MDTFDeezer

iTunes: http://bit.ly/MDTFApple

Google Play: http://bit.ly/MDTFGoogle

 

FAIXA A FAIXA (Marinheiro de Terra Firme, de Federico Puppi)

 

1- PRÓLOGO

“Castigo para los que no practican su pureza con ferocidad”, de Mario Trejo (autor argentino). Essa citação que aparece no “Prólogo” é uma chave de leitura para o disco inteiro. Uma espécie de mote do Marinheiro de Terra Firme.

 

2 – CIRANDA DOS NÁUFRAGOS

Essa música é para os esquecidos, os marginalizados. Para os marinheiros que caíram do barco e se encalharam pelas ruas das cidades.

 

3 – ANITA

Fiz essa música em parceria com Gastão Villeroy. Ele tem uma tia avó chamada Anita e minha avó tem o mesmo nome. Decidimos chamar assim essa canção pois ela tem um carinho, um lado doce na melodia que casou com este nome. Mas, aconteceu um fato interessante no percurso desta música: nasceu minha sobrinha que se chama… Anita também! E agora essa música vai toda para ela, que tem um ano e quatro meses agora e mora na Escócia com minha irmã Chiara.

 

4 – LUVI

Ludovica, nome completo de Luvi, é minha irmã mais nova. Ela tem 18 anos e vive na Itália com meus pais. Essa música nasceu como uma improvisação durante os shows da turnê “Guelã”, de Maria Gadú. Antes do bis, eu entrava no palco sozinho improvisando até ela voltar no palco. Assim, show após show, nasceu essa canção.

 

5 – CAPITÃO DO MAR

Essa música tem uma história longa. Nasceu das improvisações com meu amigo violonista Matteo Leoni, na Itália, muitos anos atrás. A gente só tocava nesta época, sem preocupação nenhuma por nada. Mas nunca foi uma canção completa, era só uma ideia. Anos depois, em 2017, quando comecei a gravar este álbum, lembrei dela e comece a tocá-la de novo. Numa viagem para Lapinha da Serra, perto de Belo Horizonte, terminei a música com Mario Wamser. Depois de anos, ela finalmente virou uma música completa. Enquanto gravava ela no estúdio, pensei que me lembrava muito o Milton e comecei a fantasiar com ele cantando. Tinha certeza que ia ficar linda com a voz dele. Tomei coragem e escrevi para o Augusto e ele me convidou para mostrar a faixa ao Milton. Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Mostrei a canção pra ele, e para mim isso já era um presente muito grande, estar perto dele mostrando meu trabalho. Ele aceitou gravá-la e a felicidade de ouvir a voz maravilhosa do Milton passear pelas melodias foi imensa! Capitão do Mar é para o marinheiro Milton, o viajante que ensina em acreditar nos sonhos, que inspira a coragem, a força e a beleza das travessias.

 

6 – DIZER SIM

Nas minhas composições sempre têm um pingo de melancolia, de tristeza. Mesmo as mais “alegres” tem sempre uma parte um pouco mais reflexiva, introspectiva. Essa música, em parceria com Mario Wamser, não tem! Foi a única música que compus, que não tem esse lado escondido. Ela é totalmente afirmativa, positiva, entusiasta. Esta música é um SIM a vida: é o ímpeto da viagem, é o vetor do movimento, o motor da vida.

 

7- EM DIREÇÃO OBSTINADA E CONTRÁRIA

Aqui começa o lado B do disco, vamos entrar na parte profunda da viagem do Marinheiro. Em direção obstinada e contrária é uma citação de Fabrizio de André da música “Smisurata Preghiera” (traduzido como Reza Infinita). Ela é a força de ir na contramão, subir o rio contra a corrente, a manifestação da vontade de ir, da força da busca, da curiosidade, da descoberta. Da liberdade.

 

8 – DANÇA DOS MISERÁVEIS

Ela é irmã de “Ciranda dos Náufragos”, é uma dança para os “miseráveis” (em sentido literário, os “Miserables”, de Victor Hugo). Para esquecer a dor, a tristeza, o preconceito, para dançar sem limites.

 

9 – VECCHIAITALIA

Essa palavra não existe, é um neologismo em italiano com a palavra “vecchiaia” (idoso) e a palavra “Itália”. Ela parece com uma work song, tem um ritmo constante, uma cadência pesada, meio hip hop, meio Blues. A Itália é um país que está ficando cada vez mais velho, na idade da população, e na mentalidade dos habitantes. O emprego para os jovens é utopia, para minha geração trabalhar imigrou para outros países, e os mais velhos têm que trabalhar até não poder mais para poder se aposentar. “Vecchiaitalia” é isso. Os velhos trabalham, os jovens fogem.

 

10 – TRANSAMAZÔNICA

A Amazônia me fascina, a mata me encanta. Sinto uma ligação forte com as florestas. Morei quase a vida todas nos Alpes, praticamente no meio das florestas alpinas. Tem um livro do Álvaro Muito chamado “A Neve do Almirante”, no qual o personagem navega nos rios da Amazonia, numa viagem física e mental através da mata. Essa música acompanha-o nesta navegação.

 

11- O SILÊNCIO DA NEVE

Como disse antes, nasci no meio dos Alpes Italianos, muito perto da França e da Suíça. Florestas, rios, pedras e neve são os elementos naturais mais presentes neste lugar. Às vezes no inverno acontece um fenômeno mágico: neva a noite toda e o dia seguinte amanhece com sol. A neve reflete a luz e ganha um tom de branco que quase te cega de tão luminoso! E os sons somem. A neve os absorve, os deixa fracos, os esconde. A paisagem fica branca, luminosa e silenciosa. Como se você estivesse olhando um outro planeta através da janela do seu quarto.

 

12- CLAREOU

Esta música é um ponto de Umbanda de Ivo de Carvalho. Ivo é um compositor maravilhoso, um ser humano de luz e uma guia espiritual que ilumina o caminho de muitas pessoas. A primeira vez que ouvi esta música me emocionei profundamente, ela me tocou num lugar muito profundo. Ela me ensinou muitas coisas. “Clareou” tem uma energia gigantesca dentro dela, dentro da sua letra, na voz do Ivo, nos atabaques. Ela finaliza este álbum conceitualmente, clareia a vida, a mente do Marinheiro. É a estrela guia, a direção, a mãe, o amor, a força, a coragem. Ela é para todos os Orixás.

 

13 – PEQUENA MÚSICA PARA UM GRANDE MOMENTO

Fecha o disco com leveza, com aquela sensação de música informal, tocada pelo puro prazer de tocar, de celebrar a vida. Agradecer pelas coisas diárias, pequenas e ao mesmo tempo tão grandes, tão importantes para as nossas vidas. Um café quente, um prato de comida, uma criança brincando no parque, o cachorro te esperando quando você volta pra casa, a brisa na varanda, uma planta que cria flor, uma manga colhida do pé, o cheiro do pão.